Disjuntor MT vs Disjuntor BT: Entenda as diferenças

À primeira vista, um disjuntor de baixa tensão e um de média tensão fazem a mesma coisa: conduzem a corrente de carga e interrompem a corrente de curto-circuito. A diferença está em tudo o que vem antes e depois desse momento: a tensão que o equipamento precisa isolar, o meio em que o arco se apaga, a norma que o ensaia e, principalmente, quem decide que é hora de abrir.

Neste comparativo de disjuntor MT vs disjuntor BT, vamos colocar o disjuntor BT e o disjuntor MT lado a lado, ponto a ponto, e entender por que, numa subestação, a pergunta “o disjuntor vai abrir?” é quase sempre uma pergunta sobre o relé de proteção.

Comparação lado a lado: disjuntor BT em caixa moldada, com disparador embutido, e disjuntor MT a vácuo extraível, comandado pelo relé de proteção no painel
ART245 | Imagem 1 – Disjuntor BT de caixa moldada e disjuntor MT a vácuo com o relé de proteção

1. Onde termina a baixa e começa a média tensão

A fronteira é 1 kV em corrente alternada. A ABNT NBR 5410 trata das instalações de baixa tensão até 1.000 V CA (ou 1.500 V CC), e a ABNT NBR 14039 assume a partir daí, cobrindo instalações de média tensão de 1,0 kV a 36,2 kV. As normas de produto seguem a mesma divisão: a ABNT NBR IEC 60947-2 vale para disjuntores de até 1.000 V CA, e a IEC 62271-100 para disjuntores de sistemas acima de 1.000 V.

Na prática das subestações industriais e de consumidores, isso significa disjuntores BT em 220, 380 ou 440 V nos quadros de distribuição e disjuntores MT nas classes de 15 kV, 24,2 kV e 36,2 kV (os catálogos da série IEC usam 24 kV e 36 kV), instalados na entrada da subestação e na proteção dos transformadores. O mesmo transformador, portanto, costuma ter um disjuntor de cada lado: um MT no primário e um BT no secundário.

2. Construção e extinção do arco

Interromper corrente alternada é, no fundo, impedir que o arco volte a se formar depois que a corrente passa pelo zero. O que muda entre BT e MT é a energia envolvida e, com ela, o meio usado para recuperar a rigidez dielétrica entre os contatos.

2.1 Disjuntores BT: o arco se apaga no ar

Em baixa tensão, o arco é extinto no ar, dentro de câmaras de extinção com placas metálicas (as grades deionizantes) que alongam, dividem e resfriam o arco até que ele não se sustente. O que diferencia os tipos de disjuntor BT é o tamanho e o comando. Os minidisjuntores de trilho DIN atendem correntes de até cerca de 125 A, com curva fixa. Os de caixa moldada chegam à faixa de 1.600 A, e a linha WEG DWB, por exemplo, vai de 16 a 1.600 A até 690 V. Já os de caixa aberta, usados em entradas de quadros gerais e em secundários de transformadores de maior porte, chegam a 6.300 A, com mecanismo de mola acumulada e execução extraível.

Se você quer o panorama dos tipos de disjuntor por nível de tensão, incluindo os de alta tensão, veja também Disjuntores BT, MT e AT: diferenças e semelhanças.

2.2 Disjuntores MT: vácuo e SF6

Em média tensão, o ar à pressão atmosférica exigiria câmaras enormes. Por isso o arco é extinto em ampolas a vácuo, hoje dominantes nas subestações de média tensão, ou em SF6, gás eletronegativo que captura os elétrons livres do arco e recupera rapidamente a rigidez dielétrica. Os disjuntores a óleo ainda existem em instalações antigas, mas não são mais a escolha em projetos novos. Além do meio de extinção, o disjuntor MT precisa de distâncias de isolamento maiores entre polos e para a terra, o que explica o porte do equipamento e do cubículo que o abriga.

Os três meios (óleo, SF6 e vácuo) estão detalhados no artigo Extinção de arco em disjuntores de média tensão.

Extinção do arco: no disjuntor BT, câmara com grades deionizantes no ar; no disjuntor MT, ampola a vácuo com os contatos
ART245 | Imagem 2 – Ampola a vácuo (MT) e câmara de extinção com grades (BT)

3. Quem manda abrir: a diferença que mais pesa na proteção

Esta é a diferença que mais interessa a quem trabalha com proteção, e também a que mais gera problemas em campo.

3.1 BT: o disparador vem embutido

O disjuntor BT nasce com a sua proteção. Nos modelos termomagnéticos, um elemento térmico (bimetálico) cuida da sobrecarga com tempo inverso, e um elemento magnético responde ao curto-circuito de forma instantânea. Nos modelos com disparador eletrônico, sensores internos medem a corrente e uma unidade microprocessada oferece as funções de longo retardo, curto retardo, instantânea e, em muitos casos, de terra (as conhecidas LSI e LSIG). Em qualquer caso, a medição, a decisão e a energia para abrir estão no próprio disjuntor: ele protege sozinho, sem TC externo nem fonte auxiliar, ao menos nas funções básicas de proteção. Comunicação, medição e alguns ajustes dos disparadores eletrônicos podem exigir alimentação auxiliar.

Isso não impede o uso de relé em BT. Quando a instalação pede funções que dependem de tensão, como subtensão, sobretensão ou direcional de potência, é comum somar um relé secundário ao disjuntor, com TCs tipo janela e bobina de abertura. Mas o relé, nesse caso, é um complemento.

3.2 MT: na falta, quem manda abrir é o relé

O disjuntor MT não tem elemento térmico nem magnético. Ele pode ser aberto pelo operador, no comando mecânico ou elétrico, e há modelos com disparador de mínima tensão; mas, para abrir sozinho diante de um curto-circuito, depende de um sistema de proteção que meça, decida e comande. Sem esse sistema, ele funciona basicamente como uma chave de manobra sob carga. Quem cumpre esse papel é uma cadeia de equipamentos: os TCs (e TPs, quando há funções de tensão) reduzem as grandezas do primário a valores que o relé consegue ler; o relé de proteção compara essas grandezas com os ajustes do estudo; o contato de trip energiza a bobina de abertura; e uma fonte garante que haja energia para acionar a bobina justamente no momento da falta.

A NBR 14039:2021 (item 5.3.4.1) trata dessa energia em duas exigências diferentes. Para qualquer tipo de relé, pede um dispositivo exclusivo que garanta a energia de acionamento da bobina de abertura e permita teste individual, e recomenda que ele seja uma fonte capacitiva. Para os relés de sobrecorrente (funções 50 e 51) microprocessados, autoalimentados ou não, pede ainda uma fonte de reserva com autonomia mínima de 2 h, que garanta a sinalização dos eventos e o acesso à memória de registro do relé na falta de energia. Ou seja: mesmo quando o relé se alimenta dos próprios TCs, a bobina de abertura continua precisando da sua fonte.

O efeito disso é que a confiabilidade da proteção em MT depende do elo mais fraco da cadeia. Um TC saturado pode comprometer ou retardar a atuação do relé; um ajuste errado, uma fonte capacitiva descarregada ou um fio de trip invertido podem atrasar a abertura ou deixar o disjuntor fechado durante o curto, por melhor que seja a sua ampola. Na BT, o ajuste errado de um disjuntor também causa problemas, mas a cadeia é muito mais curta.

Cadeia de abertura do disjuntor MT: TC, relé de proteção, contato de trip, bobina de abertura alimentada por fonte própria e disjuntor
ART245 | Imagem 3 – Cadeia de abertura do disjuntor MT: TC, relé, trip, disparador capacitivo e bobina de abertura

3.3 O que isso muda no estudo de proteção

Na BT, coordenar é escolher o disjuntor e ajustar o disparador dentro das faixas que o fabricante oferece: as curvas são as do catálogo. Na MT, o engenheiro define a função, a curva, o pick-up e o tempo de cada estágio no relé, a partir do estudo de curto-circuito e da coordenação com a proteção da concessionária a montante e com os disjuntores BT a jusante. É por isso que o disjuntor MT “vale” tanto quanto a parametrização do relé que o comanda: o mesmo equipamento pode proteger bem ou mal a subestação dependendo apenas dos ajustes.

Quiz

Teste rápido

1Em que meio o arco é extinto num disjuntor de baixa tensão?

Ver resposta

a) No ar, em câmaras com grades deionizantes. Em BT o arco se apaga no ar, em câmaras com placas metálicas que alongam, dividem e resfriam o arco; vácuo e SF6 são os meios da média tensão (seção 2).

2Num disjuntor BT termomagnético, qual elemento cuida da sobrecarga?

Ver resposta

c) O elemento térmico (bimetálico), com tempo inverso. O elemento térmico cuida da sobrecarga com tempo inverso, e o magnético responde ao curto-circuito de forma instantânea (seção 3.1).

3O que faz um disjuntor de média tensão abrir durante um curto-circuito?

Ver resposta

b) O relé de proteção, que recebe as grandezas dos TCs e comanda a bobina de abertura. O disjuntor MT não tem elemento térmico nem magnético; na atuação por proteção, quem mede, decide e comanda é a cadeia TC, relé, contato de trip e bobina de abertura, com uma fonte que garante energia à bobina (seção 3.2).

4Um TC saturado ou uma fonte capacitiva descarregada pode comprometer a abertura do disjuntor MT durante o curto. Por quê?

Ver resposta

b) Porque a proteção em MT depende de toda a cadeia externa e vale o elo mais fraco. A confiabilidade da proteção em MT depende do elo mais fraco da cadeia; uma falha num elo pode retardar a atuação ou até impedir a abertura, por melhor que seja a ampola (seção 3.2).

0

4. Normas e capacidade de interrupção

4.1 As normas de cada lado

Os disjuntores BT de uso industrial são ensaiados pela ABNT NBR IEC 60947-2 (equivalente à IEC 60947-2), e os minidisjuntores de uso residencial e análogo, pela ABNT NBR NM 60898. Os disjuntores MT seguem a IEC 62271-100, hoje na edição consolidada 3.1, de 2024 (IEC 62271-100:2021 com a emenda AMD1:2024), apoiada nas especificações comuns da IEC 62271-1. Vale um alerta: a versão brasileira, ABNT NBR IEC 62271-100, consta como cancelada desde 2012 sem substituta, então especificações e normas de concessionária costumam citar a IEC diretamente. Confira sempre o status no catálogo da ABNT antes de citar uma norma em memorial.

4.2 Icu e Ics em BT, Isc em MT

Na BT, a IEC 60947-2 define duas capacidades de interrupção. A Icu é a capacidade de interrupção última, a maior corrente que o disjuntor interrompe, ainda que depois precise ser substituído. A Ics é a capacidade de serviço, aquela após a qual ele continua apto a operar. Essas duas grandezas são da IEC 60947-2: nos minidisjuntores da NBR NM 60898, a capacidade de interrupção é indicada como Icn, e as classificações das duas normas não devem ser comparadas diretamente. Em MT, o dado de placa é a corrente nominal de interrupção em curto-circuito, acompanhada da corrente de estabelecimento (valor de crista) e das classes de desempenho, como E2 (endurance elétrica), M2 (endurance mecânica) e C2 (muito baixa probabilidade de reacendimento, o restrike, na interrupção de correntes capacitivas).

Os números parecem favorecer a BT, mas enganam. Um disjuntor de caixa moldada da linha WEG DWB chega a 80 kA de Icu em 380 V, enquanto a família de disjuntores a vácuo Siemens SION 3AE5, de 7,2 a 36 kV, é oferecida com 16 a 40 kA. Convertendo para potência de curto-circuito (√3 × V × I), os 80 kA em 380 V correspondem a cerca de 53 MVA, e 25 kA em 13,8 kV, a cerca de 598 MVA: nesses dois exemplos, uma potência de curto-circuito cerca de 11 vezes maior com menos de um terço da corrente.

A tabela resume a comparação.

CaracterísticaDisjuntor BTDisjuntor MT
Tensãoaté 1 kV CA (NBR 5410)de 1 kV a 36,2 kV nas instalações da NBR 14039
Norma de produtoABNT NBR IEC 60947-2 (industrial); NBR NM 60898 (residencial)IEC 62271-100 e IEC 62271-1
Meio de extinçãoar, em câmaras com grades deionizantesvácuo (predominante) ou SF6; óleo em instalações antigas
Corrente nominal típicade poucos ampères a 6.300 A (caixa aberta)630 a 3.150 A nas aplicações usuais; até 4.000 A em alguns modelos (no SION 3AE5, com ventilação forçada)
Capacidade de interrupçãoIcu de 16 a 80 kA em caixa moldada; até 150 kA em caixa aberta16 a 40 kA nas classes até 36 kV
Quem comanda a aberturadisparador termomagnético ou eletrônico embutidona atuação por proteção, relé externo, com TCs, TPs e fonte para a bobina de abertura
Mecanismoalavanca de abertura rápida (caixa moldada); mola acumulada (caixa aberta)mola acumulada carregada por motor, com bobinas de abertura e fechamento
ART245 | Tabela 1 – Disjuntor BT × disjuntor MT

5. Mecanismo, aplicação e manutenção

5.1 Mecanismo de operação

O disjuntor de caixa moldada é operado por alavanca, com um mecanismo de abertura e fechamento rápidos que independe da velocidade do operador; o comando motorizado é um acessório. O disjuntor MT, assim como o BT de caixa aberta, trabalha com mola acumulada: um motor carrega a mola de fechamento, e as bobinas de fechamento e abertura liberam a energia armazenada. É esse mecanismo que permite o ciclo de operação nominal da IEC 62271-100, como O – 0,3 s – CO – 3 min – CO, e o religamento comandado pelo relé. Os dois lados contam com acessórios, como a bobina de mínima tensão e a execução extraível (no disjuntor MT, o carrinho de extração), e no cubículo de MT entra ainda o intertravamento com a seccionadora.

5.2 Onde cada um entra na subestação

Numa subestação de consumidor típica, o disjuntor MT protege a entrada (o ponto em que a coordenação com a concessionária é exigida) e os transformadores; o disjuntor BT protege o secundário de cada transformador e os circuitos dos quadros. Em sistemas de maior porte, o disjuntor BT de caixa aberta com disparador eletrônico faz a ligação entre os dois mundos, porque a sua curva precisa coordenar com a do relé MT a montante, e o estudo de seletividade tem de enxergar os dois.

5.3 Manutenção

Os disjuntores BT de caixa moldada são, em geral, selados: a manutenção costuma incluir inspeção, reaperto, termografia e, nos disparadores eletrônicos, o teste da unidade de proteção, mas o roteiro e a periodicidade seguem o plano e os procedimentos do fabricante de cada modelo. Os disjuntores MT exigem manutenção periódica do mecanismo e ensaios próprios, assunto para um artigo dedicado. Em ambos os casos, porém, a manutenção do disjuntor MT só fica completa quando se testa também o relé que o comanda.

Conclusão

Disjuntores BT e MT compartilham a função, mas não a filosofia. O disjuntor BT é um equipamento autônomo, que mede, decide e abre sozinho e extingue o arco no ar; nos modelos industriais, é especificado por Icu e Ics segundo a NBR IEC 60947-2, e nos minidisjuntores, pela Icn da NBR NM 60898. O disjuntor MT extingue o arco no vácuo ou no SF6, segue a IEC 62271-100 e, nos exemplos da seção 4.2, interrompe uma potência de curto-circuito cerca de 11 vezes maior. Acima de tudo, para abrir sozinho diante de uma falta, depende de uma cadeia externa de TCs, relé e fonte para a bobina de abertura. Na média tensão, especificar bem o disjuntor é metade do trabalho: a outra metade é o estudo de proteção e a parametrização do relé.

Referências bibliográficas

  • ABNT NBR 5410 — Instalações elétricas de baixa tensão. Catálogo ABNT.
  • ABNT NBR 14039:2021 — Instalações elétricas de média tensão de 1,0 kV a 36,2 kV. Catálogo ABNT.
  • ABNT NBR IEC 60947-2:2013 — Dispositivos de manobra e comando de baixa tensão — Parte 2: Disjuntores. Catálogo ABNT.
  • ABNT NBR NM 60898 — Disjuntores para proteção de sobrecorrentes para instalações domésticas e similares.
  • IEC 62271-100:2021+AMD1:2024 (edição consolidada 3.1) — High-voltage switchgear and controlgear — Part 100: Alternating-current circuit-breakers. IEC Webstore.
  • IEC 62271-1 — High-voltage switchgear and controlgear — Part 1: Common specifications for alternating current switchgear and controlgear.
  • SIEMENS. SION 3AE5 — IEC indoor circuit-breakers for general applications (folheto técnico), 2026. PDF do fabricante.
  • WEG. DWB Molded Case Circuit-Breakers — IEC Style (folheto técnico), 2016. PDF do fabricante.
  • ABB. SACE Emax 2 — Performance. Página do fabricante.

Na média tensão, quando o curto acontece, o disjuntor só abre se o relé mandar. A Mesh Engenharia parametriza e testa relés de proteção com mala de testes, em praticamente todas as funções e fabricantes do mercado, para garantir que a proteção da sua subestação atue quando precisa. ⚡ Fale com a nossa equipe pelo WhatsApp

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